Flavia Guerra - "Noites Alienígenas" vence Gramado e consagra o cinema do Acre

Flavia Guerra – “Noites Alienígenas” vence Gramado e consagra o cinema do Acre

O Festival de Cinema de Gramado chega a seus 50 anos celebrando de fato a diversidade. O que já se anunciava na seleção, que olhou para todos os cantos do Brasil e da América Latina, foi confirmado na entrega dos Kikitos desta edição histórica não só pelo cinquentenário, mas também pela premiação de filmes que sonham e retratam um Brasil em que a grande revolução é o afeto e também olhar e contar as histórias (e a História) de um novo prisma. Por isso se entenda principalmente a escolha de “Noites Alienígenas”, de Sérgio de Carvalho, o primeiro longa-metragem do Acre para cinema, para levar o Kikito de Melhor Filme, além do Prêmio Especial do Júri para “Marte Um”, de Gabriel Martins.

“Noites Alienígenas” levou seis prêmios no total, dos quais cinco Kikitos: melhor filme, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e melhor ator coadjuvante, prêmio da crítica, entregue pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul) e por fim uma Menção Honrosa pela excelência na construção do personagem para o ator indígena Adanilo Reis.

Baseado no livro homônimo do próprio Sérgio de Carvalho, o filme conta a história de Rivelino (Gabriel Knoxx), um jovem que faz entregas para o traficante local Alê, um tipo maluco-beleza, vivido por Chico Diaz. Apesar de aparentemente contraditório, Alê enxerga com humanidade a situação dos tantos jovens acrianos que são cooptados pelas facções criminosas do Norte do Pais, hoje assolado pela guerra de facções que outrora ocorria no Sudeste e que hoje também atinge a Amazônia urbana. Em paralelo à história de Rivelino, o jovem indígena Paulo (Adalino Reis) luta contra a dependência em crack e sonha em voltar à sua ancestralidade e em se curar para poder cuidar do filho que tem com Sandra (Gleice Damasceno, do BBB 18), ótima no papel desta mãe que cria o filho praticamente sozinha e que, nos intervalos entre a vida em casa e o trabalho de garçonete, participa do movimento hip hop de Rio Branco.

A produtora de “Noites Alienígenas”, Karla Martins, e o diretor Sérgio de Carvalho

Imagem: Edison Vara / Divulgação

“O Acre existe, o cinema do Acre existe. A gente sente como se fosse um álbum de família e estivesse sempre meio ali no canto, dizendo espera que eu também estou aqui”, disse a produtora acriana Karla Martins ao receber o Kikito no final da longa noite de premiação. Ao lado de Sérgio de Carvalho, ela também ressaltou que o atual vigor, e a existência do filme, do cinema das bordas do Brasil é fruto de políticas públicas de descentralização da produção audiovisual no Brasil.

“Ele é sobre as pessoas que vivem nas periferias deste País, das que vivem nas periferias do Acre. Nunca mais este festival será igual porque hoje ele abriu uma porta e reconheceu algo que não tem volta para este País”, afirmou a produtora. “Para nós é um orgulho. A gente também é fruto, e agora eu quero celebrar as palavras da equipe de “Marte Um”, porque a gente é fruto da política pública. A gente é fruto de dinheiro descentralizado. A gente é fruto de política que chega lá na ponta, na borda, nas beiras deste País, que durante muito tempo achou que só uma parte dele produzia cultura. Isso não é verdade. Então, a gente também acredita que a escolha de outubro não se trata de uma escolha política. Ela se trata de uma escolha entre a vida e a morte. E nós escolhemos a vida”, completou Karla.

Premiação foi marcada por festa, protestos e defesa de políticas públicas para o audiovisual - Flavia Guerra / Divulgação - Flavia Guerra / Divulgação

Premiação foi marcada por festa, protestos e defesa de políticas públicas para o audiovisual

Imagem: Flavia Guerra / Divulgação

A política, tanto a pública direcionada para o cinema e a TV brasileira, quanto a que movimenta e agitará o País nas próximas eleições, deram o tom a uma cerimônia que contou com brados de “Fora Bolsonaro”, bonés com o número 13.gestos de L, que foram presença em vários agradecimentos e, claro, garantiram aplauso e vaias. Cidade em que há canecas, latas de cerveja como souvenires nas lojas locais em homenagem ao presidente Jair Bolsonaro, era natural que houvesse divisão também na plateia. A democracia, e o direito de se contar histórias diversas e de se ter ideias, incluindo políticas, também diversas, foi defendida por praticamente todos os premiados da noite, mas o tom do público no geral foi de respeito aos discursos.

Em uma cerimônia longa, houve um certo tom anti-climático por conta da expectativa do público (formado tanto por profissionais do cinema quanto pelo público da cidade de Gramado e da região) em torno de “Marte Um”. Desde a première do filme durante a semana, calorosa como poucas vezes se viu, “Marte Um” era o filme mais apontado para levar o prêmio principal nas rodas de conversa. Não por acaso, levou o Prêmio do Público. O filme mineiro retrata as dificuldades de uma típica família brasileira de classe média baixa, que caminha na corda-bamba em meio a uma economia em crise, em um país cujo poder público não olha por eles e que, apesar disso, do racismo, da violência, do preconceito e de todas as dificuldades, “dá um jeito” de ser feliz. Personagens reais, palpáveis, com quem é fácil (no melhor sentido do termo) se conectar, torcer por eles, emocionar-se com eles.

“Marte Um” levou os Kikitos de Melhor Roteiro, Trilha Sonora, Júri Popular e Prêmio Especial do Júri

Imagem: Divulgação

A sinopse de “Marte Um” poderia ser a sinopse da história recente do cinema brasileiro, que vem dando um jeito de continuar existindo, vigoroso e criativo, apesar de enfrentar nos últimos anos crises em tempos de extinção do Ministério da Cultura, em que a Ancine (Agência Nacional do Cinema) também está em crise e que ainda se encarou uma pandemia. Muito por isso a defesa da política pública para a cultura e o audiovisual brasileiro foi, como já citado, a tônica dos discursos de agradecimento das equipes de curtas e longas-metragens.

“Marte Um” levou também os Kikitos de Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora, também totalizando quatro prêmios no total. Quando a equipe subiu ao palco para receber o Prêmio Especial do júri, o produtor Thiago Macedo Correa definiu bem o sentimento que move o filme e o cinema brasileiro atual: “A gente tenta trazer para a tela uma história de uma família brasileira com seus sonhos e os sonhos peculiares de um garoto que tem um sonho, de certo modo, impossível e para a gente é uma expressão do sonho de cinema. Eu mudei para Belo Horizonte em 2005, fui fazer o curso de cinema, em que encontrei Gabriel e André (Novais de Oliveira), dois dos meus sócios, e anos depois Maurílio Martins (que não está aqui hoje). Em 2009, a gente criou a Filmes de Plástico, que se tornou nosso sonho de cinema. Assim como sonho do Deivinho, parecia um sonho meio impossível porque o cinema em 2009 era muito elitista. Cinema ainda é muito esitista, a gente sabe. A gente precisa estar dentro de todos os lugares para hackear o sistema.”

O produtor Thiago Macedo Correa, de

O produtor Thiago Macedo Correa, de “Marte Um”

Imagem: Edison Vara / Divulgação

Thiago que, com a produtora Filmes de Plástico, já produziu filmes premiados em importantes festivais no Brasil e no exterior (como “Temporada” e “No Coração do Mundo”), completou: “A Filmes de Plástico, eu tenho muito orgulho, veio para ocupar um espaço que não era nosso. A gente brinca que a gente foi lá e tomou o que não era nosso. Eu, um cara pobre do interior, meus amigos, homens pretos da periferia. E a gente tem muito orgulho de ter ajudado a sedimentar narrativas como esta nas telas, ajudando outras gerações a sonhar.”

Assim como a equipe de “Noites Alienígenas”, a equipe de “Marte Um” reforçou a importância crucial da política pública de descentralização da verba destinada ao cinema no Brasil: “Agradeço este prêmio e falo que nosso cinema só foi possibilitado pelos governos do Partido dos Trabalhadores que, por 13 anos, governaram o País. Nós sabemos do nosso lugar de privilégio, mas ele veio acompanhado de políticas públicas. A gente está aqui por conta do Fundo Setorial do Audiovisual, a gente está aqui por conta do Brasil de Todas as Telas”. Thiago ainda ressaltou seu apoio a Lula nas próximas eleições e concluiu:

“Peço apenas especial atenção para as possibilidades de ações afirmativas, como possibilitaram este longo que esta na tela, estas narrativas, estes rostos estarem na tela. Dá resultado, traz amor e possibilita que se tenha mais esperança. Obrigado, estamos junto. Olhe para o povo preto cada vez mais. Viva o cinema brasileiro!”

O rapper e ator Gabriel Knoxx se emociona ao levar o Kikito de Melhor Ator em Gramado  - Divulgação - Divulgação

O rapper e ator Gabriel Knoxx se emociona ao levar o Kikito de Melhor Ator em Gramado

Imagem: Divulgação

Os prêmios de atuação trouxeram surpresas. O de Melhor Atriz Coadjuvante foi para Joana Gatis, de “Noites Alienígenas”. Lorenna Ortiz, diretora assistente do filme, representou Joana, que dedicou a todas as mães que perderam seus filhos para o tráfico e a todas as mulheres ribeirinhas. Chico Diaz levou o merecido prêmio de Ator Coadjuvante por seu Alê de “Noites Alienígenas”, que também rendeu ao jovem e estreante Gabriel Knoxx o Kikito de Melhor Ator. Muito emocionado, ele subiu ao palco chorando e dedicou o prêmio à sua mãe, sua tia e sua avó.

Marcélia Cartaxo, premiada em 2019 por “Pacarrete”, levou mais uma vez o Kikito de Melhor Atriz por “A Mãe”, de Cristiano Burlan. Na trama, passada na periferia profunda de São Paulo, ela vive uma uma mãe nordestina em busca de seu filho adolescente que foi morto pela Polícia. “Ela é o rosto de muitas periferias do país. Dedico este prêmio também a todas as Elizabeths Teixeiras e à minha mãe, que eu gostaria que estivesse aqui hoje”, declarou o diretor, que recebeu o prêmio por Marcélia, que não pôde estar na premiação, pois está filmando um novo trabalho.

Burlan também levou o prêmio de Melhor Direção. “Estou muito feliz. E fico muito emocionado de ver toda a quebrada do cinema brasileiro em Gramado”, disse o diretor, que completa 47 anos neste domingo.

Nos curtas, “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, foi o grande vencedor na competição oficial. Além do Kikito de Melhor Curta, levou o de Melhor Direção e o prêmio da crítica. O filme, que retrata, por meio de uma narrativa musical, a realidade dura dos entregadores de aplicativo do Brasil. Com Silvero Pereira e Dennis Pinheiro no elenco, que é todos formado por atores jovens., “Fantasma Neon” traz a ousadia que o formato curta permite, explorando um gênero tão pouco explorado no cinema brasileiro.

Unir o passinho, o funk, o rap com cenas que revelam a situação de precariedade social, econômica e política do jovem brasileiro é um dos grandes feitos do curta, que foi também o grande vencedor do Festival de Locarno 2021, alem de passar por festivais como Sán Sebastián, Clermont-Ferrant, Cartagena, entre outros. “Fantasma Neon” ainda levou o prêmios Canal Brasil de Curtas.

Confira todos os prêmios do 50º Festival de Cinema de Gramado:

LONGA-METRAGEM BRASILEIRO

Melhor Filme – “Noites Alienígenas”, de Sérgio de Carvalho

Melhor Direção – Cristiano Burlan, por “A Mãe”

Melhor Ator – Gabriel Knoxx, de “Noites Alienígenas”

Melhor Atriz – Marcélia Cartaxo, de “A Mãe”

Melhor Roteiro – Gabriel Martins, de “Marte Um”

Melhor Fotografia -Rui Poças, de “Tinnitus”

Melhor Montagem – Eduardo Serrano, de “Tinnitus”

Melhor Trilha Musical – Daniel Simitan, de “Marte Um”

Melhor Direção de Arte – Carol Ozzi, de “Tinnitus”

Melhor Atriz Coadjuvante – Joana Gatis, de “Noites Alienígenas”

Melhor Ator Coadjuvante – Chico Diaz, de “Noites Alienígenas”

Melhor Desenho de Som – Ricardo Zollmer, de “A Mãe”

Júri da Crítica – “Noites Alienígenas”, de Sérgio de Carvalho

Júri Popular – “Marte Um”, de Gabriel Martins

Prêmio Especial do Júri – “Marte Um”, de Gabriel Martins, que nos trouxe o afeto para a tela.

Menção Honrosa a Adanilo, por “Noites Alienígenas”, pela excelência da construção da linha do personagem e interpretação.

LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO

Melhor Filme – “9”, de Martín Barrenechea e Nicolás Branca

Melhor Direção – Néstor Mazzini, de “Cuando Oscurece”

Melhor Ator – Enzo Vogrincinc, de “9”

Melhor Atriz – Anajosé Aldrete, de “El Camino de Sol”

Melhor Roteiro – Agustin Toscano, Moisés Sepúlveda e Nicolás Postiglione, de “Inmersión”

Melhor Fotografia -Sergio Asmstrong, de “Inmersión”

Júri da Crítica – “9”, de Martín Barrenechea e Nicolás Branca

Júri Popular – “La Pampa”, de Dorian Fernández Moris

Prêmio Especial do Júri a Direção de Arte de Jeff Calmet, de “La Pampa”

CURTA-METRAGEM BRASILEIRO

Melhor Filme – “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli

Melhor Direção – Leonardo Martinelli, por “Fantasma Neon”

Melhor Ator – Dennis Pinheiro, de “Fantasma Neon”

Melhor Atriz – Jéssica Ellen, de “Último Domingo”

Melhor Roteiro – Fernando Domingos, de “O Pato”

Melhor Fotografia – Fernando Macedo, de “Último Domingo”

Melhor Montagem – Danilo Arenas e Luiz Maudonnet, de “O Elemento Tinta”

Melhor Trilha Musical – “Nhanderekoa Ka´aguy Porã” Coral Araí Ovy e Conjunto Musical La Digna Rabia, por “Um Tempo pra Mim”

Melhor Direção de Arte – Joana Claude, de “Último Domingo”

Melhor Desenho de Som – Alexandre Rogoski, de “O Fim da Imagem”

Júri da Crítica – “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli

Júri Popular – “O Elemento Tinta”, de Luiz Maudonnet e Iuri Salles.

Menção Honrosa – “Imã de Geladeira”, de Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo, por catapultar a urgente discussão sobre o racismo estrutural através do horror cósmico

Prêmio Especial do Júri – “Serrão”, de Marcelo Lin. Pelo frescor da narrativa a partir de um olhar ressignificado, emergente e com o coração no lugar certo

Prêmio Canal Brasil de Curtas – “Fantasma Neon” Leonardo Martinelli

LONGA-METRAGEM GAÚCHO

Melhor Filme – “5 Casas”, de Bruno Gularte Barreto

Melhor Direção – Bruno Gularte Barreto, por “5 Casas”

Melhor Ator – Hugo Noguera, de “Casa Vazia”

Melhor Atriz – Anaís Grala Wegner, de “Despedida”

Melhor Roteiro – Giovani Borba, de “Casa Vazia”

Melhor Fotografia – Ivo Lopes Araújo, de “Casa Vazia”

Melhor Direção de Arte – Gabriela Burk, de “Despedida”

Melhor Montagem – Vicente Moreno, de “5 Casas”

Melhor Desenho de Som – Marcos Lopes e Tiago Bello, de “Casa Vazia”

Melhor Trilha Musical – Renan Franzen, de “Casa Vazia”

Júri Popular – “5 Casas”, de Bruno Gularte Barreto

Menção Honrosa – Clemente Vizcaíno, por “Despedida”, pela presença destacada no filme e por sua importância na história do cinema gaúcho

Menção Honrosa – “Campo Grande é o Céu”, de Bruna Giuliatti, Jhonatan Gomes e Sérgio Guidoux, pelo resgate da tradição de cantorias e da importância das comunidades quilombolas daquela região do Rio Grande do Sul

LONGA-METRAGEM DOCUMENTAL

Melhor Filme – “Um Par Pra Chamar de Meu”, de Kelly Cristina Spinelli.

Menção Honrosa – “Elton Medeiros – O Sol Nascerá”, de Pedro Murad, pela valorização do compositor, parceiro dos grandes nomes da música popular brasileira, e também pelo rigor formal e criativo na recriação visual da vida e das grandes composições de Elton Medeiros, que faleceu em 2019. Parabéns ao diretor Pedro Murad e equipe.

PRÊMIO MELHOR FILME DA MOSTRA UNIVERSITÁRIA

Melhor Filme –Ícaro”, de Wesllen Machado, da Universidade de Santa Cruz do Sul (RS). Vencedor do concurso interativo do Conexões Gramado Film Market / Prêmio TECNA Tecnopuc, que recebe R$ 3 mil reais em serviços de imagem e som.


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